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Curso de Economia Marxiana começa no dia 11/8

02/08/2010 | Comentários (0) | Economia | Por: Altamir Tojal

O pensamento de Karl Marx continua relevante e influente, mas são raras as oportunidades de estudá-lo no Rio de Janeiro. O Corecon RJ inicia na próxima semana (dia 11/8) o Curso de Economia Marxiana, com base na leitura do Livro I de O Capital, ministrado pelo professor João Leonardo Medeiros, autor da tese A Economia diante do horror econômico. No ano passado, um curso parecido foi adiado por falta de alunos e, agora, o Conselho está procurando interessados para completar a turma. A economia marxiana não se restringe à economia marxista, pois inclui a contribuição de outros pensadores influenciados por Marx, não necessariamente alinhados com o seu programa socialista. Se você tem interesse, veja as informações a seguir.

Período

De 11 de agosto a 15 de dezembro de 2010. Uma vez por semana, as quartas-feiras, de 19h às 21h40 - Curso de 60 horas

Professor

João Leonardo Medeiros - Doutor em Economia pela UFRJ. Título da tese: A Economia diante do horror econômico. Professor adjunto da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense. Link para o currículo Lattes.

Programa

Unidade I. Valor, dinheiro e capital: as categorias imediatamente dadas da circulação capitalista
1. Desvendando o mistério do valor
2. Valor, dinheiro e circulação
3. A transformação de dinheiro em capital
4. A mais-valia e os juros como categorias indispensáveis da produção mercantil

Unidade II. A produção de valor
1. O processo de trabalho e a especificidade da produção capitalista
2. Peculiaridades da mercadoria força de trabalho
3. A jornada de trabalho
4. Formas de extração da mais-valia: mais-valia absoluta e relativa

Unidade III. Transformação da produção sob comando do capital
1. A transformação das formas produtivas pré-capitalistas
2. O controle do processo de trabalho como objetividade: a tendência à desantropomorfização
3. Conseqüências da perda da centralidade do trabalho

Unidade IV. A dinâmica capitalista
1. Produção e reprodução do capital
2. Reprodução simples e reprodução ampliada
3. A acumulação do capital
4. A lei geral da acumulação capitalista

Unidade V. De volta ao começo e do começo ao possível fim
1. A acumulação primitiva: a gênese da produção capitalista
2. Projetando cenários para o modo de produção capitalista

Bibliografia obrigatória
MARX, K. O Capital: crítica da economia política – Livro I, volumes 1 e 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Informações
1. Todos os cursos conferem certificado (com especificação de número de horas-aula e conteúdo programático).
2. O horário de atendimento da Secretaria de cursos é das 10h às 20h.
3. Ao preencher o formulário de inscrição, não deixe campos em branco. Em caso de dúvidas, ligue para (21)2103-0118. Não deixar um telefone ou um e-mail impede de entrarmos em contato para dar alguma informação complementar necessária.
4. Após o preenchimento do formulário de inscrição você deverá comparecer à Secretaria de Cursos para efetuar o pagamento. O primeiro cheque (ou o único, se preferir o pagamento à vista) é sempre datado para o primeiro dia do curso (ou para a sua melhor data). Em caso do curso não ser realizado por qualquer motivo, o(s) cheque(s) será (ou serão) devolvido(s). É muito importante este pagamento ser efetuado o mais cedo possível, pois isto confirma seu interesse e garante sua vaga.
5. É necessário um número mínimo de alunos – que varia entre 10 e 15 – para formar uma turma. Não deixe para a última hora a sua matrícula, pois você poderá contribuir na decisão de não haver o curso.
6. Caso prefira efetuar depósito bancário, entre em contato pelo e-mail: cursos@corecon-rj.org.br para obter as informações.

Mais informações: Creuza Stephen Figueira - Secretária de Cursos (21) 2103-0119

 

Florestas e 'dumping' reputacional

06/07/2010 | Comentários (0) | Economia | Por: Altamir Tojal

'Dumping' reputacional

Por Luiz Fernando Brandão

Entre Helvécia, distrito no extremo-sul da Bahia — região que concentra um dos bolsões de miséria do nosso país —, e Oslo, a impecável capital da Noruega, locais que visitei no espaço de apenas 15 dias, existe um fosso profundo. Que não é só a imensa desigualdade de riqueza, educação, oportunidades e bem-estar social.

É um fosso de desconhecimento, um hiato criado pela incapacidade de se compreender um outro mundo que coexiste neste mundo de nós todos. Um gap que os mais bem-intencionados esforços de educação, comunicação e engajamento, pelo menos no horizonte visível hoje, são incapazes de preencher.

A elegante senhora que se agacha, compungida e solícita, diante do jovem dependente químico maltrapilho e mendicante na imaculada Karl Johans Gate, a principal avenida de Oslo, terá idéia das condições em que vivem os milhões de miseráveis que lutam pela sobrevida nos confins interioranos do norte e nordeste brasileiros ou nas periferias de nossas metrópoles?

As centenas de turistas escandinavos que se comovem e mobilizam diante de enormes painéis exibindo fotos belíssimas de caçadores, mulheres e crianças indígenas amazônicos, nas ruas de Oslo, terão alguma idéia do contexto em que estes nossos povos originais sobrevivem em meio a outros 20 milhões de conterrâneos de todas as origens — européias, negras e asiáticas — que habitam a vasta Amazônia brasileira? Terão eles noção dos desafios de governança de um país de dimensões continentais como o nosso, com quase 200 milhões de habitantes e apenas 200 anos de história nacional, num mundo de economias globalizadas?

Os povos viquingues dominaram os mares do Norte entre os anos 800 e 1050 d.C. Navegadores, guerreiros e mercadores habilidosos, foram os primeiros europeus a pôr os pés na América do Norte. Em três séculos, conquistaram, saquearam, colonizaram e desapareceram — uns, talvez cansados do horror, assentados como agricultores ou dedicados à pesca; outros, dominados pelos que não conseguiram vencer no fio da espada e do machado. Seu DNA sobrevive em boa parte dos povos da Dinamarca, Suécia e Noruega, países de PIBs generosos, direta ou indiretamente turbinados pela exploração e comercialização de petróleo, que beneficiam um contingente total de menos de 20 milhões de pessoas.

Aqui, cabe remeter à questão essencial: nós, os humanos, em nossa trajetória sobre a Terra, continuamos longe de superar o desafio de nossa condição intrínseca, utilitarista quanto aos recursos naturais e leviana quanto às conseqüências de nossos atos e escolhas sobre nosso futuro comum. Enquanto essa pulsão não for domada, disciplinada, pouca esperança restará para as próximas gerações. A culpa e o imediatismo continuarão a prevalecer, mesmo por trás da fachada de ajuda humanitária, de altruísmo dos muito ricos com relação aos muito pobres. Esse quadro só poderá ser superado por novas visões de mundo que conciliem os avanços da ciência e da tecnologia com o entendimento de que somos um único povo, habitante e organicamente parte da Terra, e que só vencendo nossas diferenças poderemos sobreviver.

É uma pena que a superficialidade humana não nos permita usar com propriedade a riqueza de informações online que a era da internet nos oferece. A uma análise mais aprofundada das razões das nossas diferenças culturais e sociais, parecem preferíveis as conclusões simplistas que remetem ao ancestral embate entre o bem o mal. Parece mais fácil acreditar em acusações que materializem externamente um grande vilão e assim expiar nossa responsabilidade por cada abuso socioambiental que ocorre em qualquer canto do planeta. Responsabilidade pela omissão, responsabilidade pelo desinteresse, responsabilidade pela conveniência.

E então assistimos a algo que começa a se configurar como dumping reputacional de países, empresas e instituições. Um processo em que o hiato de compreensão entre realidades diferentes no planeta é utilizado como alavanca para reforçar percepções simplistas; em que situações complexas que requerem análises e soluções igualmente complexas veem-se reduzidas a uma visão maniqueísta, passando ao largo das infinitas nuances da vida real.

É assim que países do hemisfério norte encontram seus vilões na metade de baixo do planeta, tão distante de seus corações e mentes. Gente preparada e bem informada não raro dá crédito a fontes que nem ao menos se preocupam com a fidedignidade das histórias que propagam sobretudo pela Grande Rede. Por que lhes é tão difícil, por exemplo, perceber a enorme diferença que existe entre empresas que, malgrado suas imperfeições, dilemas e dificuldades, se esforçam por práticas socioambientais corretas, e aquelas inconsequentes e imediatistas?

Uma hipótese é que, para alguns cidadãos de países mais ricos, seja difícil admitir que interesses específicos de suas próprias economias possam estar por trás de denúncias que acolhem como verdadeiras. Afinal, em muitos casos, o desenvolvimento sustentado de países como o Brasil e o sucesso das nossas empresas podem representar ameaças para suas empresas ou para os empregos de alguns dos seus compatriotas. É melhor acreditar no vilão lá longe.

Mas há também uma parcela de responsabilidade dos governos, empresas e das ONGs de países emergentes, como o Brasil. É preciso um esforço maior – consistente e permanente – de comunicação daqui para o mundo dos ricos, para estabelecer os fatos e desfazer a confusão provocada pelas denúncias falsas, embaladas na defesa de causas nobres e em chavões politicamente corretos.

Uma missão na qual os comunicadores empresariais brasileiros devem se engajar o quanto antes, com seu conhecimento, experiência e redes de relacionamento, a bem do interesse de suas próprias organizações, de seus filhos e netos, do nosso país e do nosso futuro comum.

Luiz Fernando Brandão é consultor de comunicação, jornalista e tradutor.
 

MINISTRO, NÃO ENFIE A FACA NO SOCIAL

14/10/2008 | Comentários (3) | Economia | Por: Altamir Tojal

O que precisamos mais nesta hora é de ação política para evitar que os mesmos homens que nos levaram a esta crise mantenham o poder absoluto de antes, submetendo a sociedade aos mesmos interesses.


Há uma guerra feroz pelo espólio da crise financeira global. Sabe-se que os mercados não serão como antes e que o capitalismo não será o mesmo. Mas que mundo surgirá daqui para frente?

Não se trata de adivinhar o mundo do futuro fugidio, mas de viver o mundo de amanhã mesmo, aquele no qual acordaremos depois da próxima noite. Ele está sendo moldado agora, minuto a minuto, no calor da crise, no embate entre os que querem os mercados mais ou menos vigiados pela sociedade e, sobretudo, na definição de quem pagará a conta dos danos e quem ganhará com a recuperação da economia global.

Aqui, o nosso ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse que "se precisar, vai enfiar a faca", referindo-se a cortes nos investimentos públicos e ao adiamento de programas sociais. E não são poucos os que preconizam mais do mesmo, ou seja, do mesmo catecismo da submissão da sociedade aos mercados, o catecismo que nos guiou para a crise.

Estes são os que acusam a mão intervencionista do estado de ter provocado a crise global, exatamente por desmontar e subverter os limites e controles que existiam no sistema financeiro norte-americano e de outros países. E qual foi o resultado disso? Foi deixar a mão invisível do mercado mais à vontade para multiplicar lucros sem lastro na realidade da economia.

Estes são os mesmos que acusam agora os governos de "estatismo exacerbado" porque decidiram comprar ações dos bancos, para evitar que a ruína deles seja a ruína de todos nós.

Ora, não existe a rigor, no capitalismo, conflito entre mão do estado e mão do mercado. A maior prova disso é esta mega operação de salvação de bancos pelos governos de todo o mundo. Diz o economista Robert Shiller, renomado especialista em crises financeiras: "O envolvimento dos governos com a economia é uma questão de medida, não de absolutos".

O estado intervém sempre, mesmo quando não intervém. Deixar os mercados à vontade é uma das formas mais perversas de intervenção. Significa soltar os predadores para o banquete na sociedade. Primeiro se saciam com os mais fracos; depois partem para se devorar. Aí a bolha - ou a bomba - explode.

Muito mais que um embate de idéias, a guerra feroz pelos despojos da crise é uma guerra de interesses. É uma luta pelo controle. Quem vai controlar quem a partir de agora? Quem vai mandar mais e fazer o mundo ser de acordo com o que quer?

O que testemunhamos nos últimos anos foi a exacerbação do controle sobre os indivíduos e a sociedade e a absoluta leniência com os mercados e o capital.

Vivemos sob um sistema capaz de saber tudo sobre cada um de nós, que nos vigia o tempo todo. Pense no que acontece se você deixar de pagar a conta do cartão de crédito ou se não declarar cem reais ao imposto de renda. Ao mesmo tempo, esse sistema fingia ignorar a farra irresponsável das finanças bilionárias.

Bem, agora os governos estão tendo de pagar o maior resgate da história da Humanidade para evitar que a sociedade seja massacrada pela crise causada pela orgia financeira.

As leis e os estados são produções dos homens e de seus interesses. O que precisamos mais nesta hora é de ação política para evitar que os mesmos homens que nos levaram a esta crise mantenham o poder absoluto de antes, submetendo a sociedade aos mesmos interesses.

Esta grande e urgente missão política é irmã de outra, igualmente desafiadora e imediata: não deixar o ministro enfiar a faca no social.

Ao contrário, ministro, a crise deve nos deixar com mais vontade de investir e trabalhar para que o mundo da próxima manhã seja melhor que este. O senhor sabe que a sustentabilidade da economia brasileira hoje vem de políticas econômicas responsáveis com a moeda e com o orçamento público. Mas o outro componente disso são as políticas de investimento, emprego, valorização dos salários e transferência de renda para os mais pobres.

É preciso acreditar e apostar nisso. E pensar livre do medo e do terror do mesmo. Estão presentes hoje possibilidades poderosas de mudança, não só para vencer esta crise, mas também para construir um modo de vida que corresponda à extraordinária capacidade do homem de produzir mais com menos trabalho e menos capital. Em vez de resultar na próxima bolha, isso pode e tem de ser conduzido - pela ação política da sociedade - para a introdução de padrões distributivos funcionais para os novos meios produtivos.

É esta escolha que está em jogo na guerra de palavras e de idéias pelo espólio da crise.

A FARRA DO CRÉDITO E O HOMEM ENDIVIDADO

24/09/2008 | Comentários (5) | Economia | Por: Altamir Tojal

O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a maior e mais urgente missão política da hora.


É preciso ter cuidado para não cair na mesma tentação dos profetas do pensamento único, que assinaram antes da hora o atestado de óbito da diferença. Eles saudaram a convergência das idéias - não só as econômicas - em torno do paradigma absoluto do mercado. Deu no que deu.

Não cabe, então, decretar o fim do liberalismo, mesmo depois da intervenção trilionária dos governos para conter o efeito dominó dos bancos quebrados. E parecem vãs as especulações sobre o que vai acontecer com o capitalismo.

Mas 2008 vai ser lembrado como o ano em que o capitalismo mudou. Mudou mais uma vez. O capitalismo se nutre da mutação. Tem fôlego de sete gatos.

Evocando Marx, o filósofo Gilles Deleuze disse que o capitalismo é um "sistema imanente que não pára de expandir os próprios limites, reencontrando-os sempre numa escala ampliada, porque o limite é o próprio capital".

Os mais pessimistas dirão que o capitalismo mudou para pior. Esta é a finalidades deles. Teremos outra grande recessão e a miséria será maior para sempre. Os otimistas - se é que sobrou algum - e os menos pessimistas talvez vejam esta nova crise de forma menos sombria.

A Quebra de 1929 levou ao Welfare State, estado do bem-estar, que durou umas boas quatro décadas. Por que não é possível admitir agora algum controle da sociedade sobre o capital financeiro? E por que não admitir políticas globais de comunhão da imensa riqueza produzida pelos avanços da tecnologia e da ciência?

Não parece fazer sentido que uma economia que depende cada vez menos do trabalho insista em padrões primitivos de distribuição e em desperdiçar o imenso ganho de produtividade em crises sucessivas e guerras sem fim.

Afinal, o mundo real continua no mesmo lugar, produzindo suas misérias e maravilhas. Por que não botar algumas fichas em nossa capacidade de ir em direção do que fazemos e podemos fazer de melhor?

Depois do enfraquecimento do estado do bem-estar e da derrocada do comunismo soviético, o triunfalismo liberal quis enterrar a esquerda e buscou desqualificar qualquer outra crítica ou proposta alternativa. Tudo que não glorificasse o deus mercado era jurássico e insano.

Ok, o Muro ruiu de podre. O estatismo coroou a imoralidade e a incompetência. Muitas políticas para proteger os desprotegidos falham e acabam superprotegendo os já protegidos.

Mas é deplorável que esse fracasso tenha sido usado para penalizar políticas sociais e para promover a farra do crédito sem lastro. E pior, para sufocar a divergência e indultar liminarmente os que se locupletam da "exuberância irracional" e os que fecham os olhos diante da orgia financeira globalizada.

E agora? É pouco provável que a arrogância triunfalista liberal sobreviva ao choque dessa crise. E é certo que de nada vale trocar uma arrogância por outra. O fracasso do liberalismo desregrado não transforma em sucesso o fracasso do intervencionismo voluntarista.

O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a maior e mais urgente missão política da hora.

Vale, também, estar atento à sedução do endividamento. Pelo menos aqui no Brasil, o comércio e as financeiras continuam distribuindo dinheiro fácil, a perder de vista. É bobagem querer demonizar o crédito. Mas é bom ter cuidado para não empenhar a alma.

A farra do crédito vem de longe e o primeiro aviso público da crise chegou na metade de 2006, com a disparada dos juros imobiliários nos Estados Unidos. Desde então, cada capítulo da novela parece validar outra formulação de Deleuze (para ficarmos no mesmo filósofo). Ele observou que o homem endividado é o sujeito dessa versão contemporânea do capitalismo, que depende cada vez menos da coerção explícita para exercer o controle social. No lugar do medo do inferno ou da prisão basta agora a alegria do cartão de crédito.

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