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FATOS E VERSÕES

20/10/2014 | Comentários (0) | Comunicação | Por: Altamir Tojal

O acesso do eleitor à informação faz diferença na hora do voto? Texto do jornalista Luiz Fernando Brandão.

Aprendemos cedo, no ofício da comunicação, que as versões valem mais que os fatos. Essa máxima, se já serviu aos piores propósitos, para nossa miséria torna-se ainda mais válida e atual diante do que os estudiosos do comportamento humano qualificam de sociedade líquida. Um fenômeno em que o ritmo e a qualidade de nossas escolhas são ditados pela instantaneidade, e o trânsito ininterrupto e caótico de novas informações atropela a reflexão e passa a dar o tom às trocas afetivas e cognitivas.

O mesmo princípio, que decerto contribuiu para estigmatizar a atividade das relações públicas como a arte de distorcer a verdade em proveito próprio, está agora, no campo da política, a testar a um só tempo os limites de sua validade e os da capacidade humana de iludir e se deixar iludir.

Não se trata apenas de mudar de assunto quando os rumos da conversa contrariam nossos interesses e os fatos não estão do nosso lado. Muito menos de lançar mais luz sobre outros aspectos da questão, deixando à sombra aqueles que não somam a nossa argumentação. Ambos, respeitado um mínimo de decência e de bom senso, são recursos legítimos em qualquer discussão, e tendem a favorecer a acomodação de interesses e a solução de conflitos.

Estamos falando de negar os fatos, pura e simplesmente, mesmo que eles estejam esperneando diante de nossos olhos. Como se pudéssemos, por exemplo, negar que o dia e a noite se sucedem, e são caracterizados – pelo menos para os terráqueos que não estejam flanando no espaço sideral – por períodos de claridade e de escuridão. Da mesma forma, a lei da física que reza que a toda ação corresponde uma reação. Fatos tão simples não admitem versões, são à prova de relativização.

Mas não é o que defendem e praticam os experts na manipulação da opinião pública. Sobretudo os pertencentes à elite do ofício, os em geral muito bem remunerados (quando têm êxito) profissionais do marketing político. Eles sabem bem que, sob condições favoráveis, é mais do que possível emplacar qualquer versão, sejam quais forem os fatos. Sobretudo em um país de curta memória, com um contingente de dezenas de milhões de eleitores carentes de quase tudo, desde o acesso a saúde e educação até políticas públicas mais justas e distributivas.

Nunca antes houve tamanha facilidade de acesso a informação de qualidade – as pessoas têm hoje melhores condições de conhecer os fatos e suas diferentes interpretações, e basear suas escolhas na versão que lhes pareça mais digna de confiança. Mas isso, para a felicidade e os saldos bancários de muitos desses "marqueteiros", não parece fazer muita diferença na hora de escolher pelo voto democrático. Mesmo porque, no até aqui eterno país do futuro, boa parte dos eleitores está mais preocupada em sobreviver do que com denúncias de corrupção e programas de governo. Para quem não tem água para regar a horta nem comida suficiente para aguardar o dia seguinte, e não vê perspectivas de melhoria até o final de suas sofridas vidas, falar em planos de longo prazo é quase uma ofensa à inteligência e um convite à revolta.

Sonho com um dia em que, pelo menos nas decisões mais cruciais em que estejam em jogo os interesses coletivos, os fatos falem enfim mais alto que as versões. Com um povo majoritariamente educado, capaz de discernir entre posturas e defesas ideológicas e os interesses mais mesquinhos. Com um país menos desigual, governado por pessoas de mais qualidade, que aspirem ao mandato para tentar melhorar, em bases sustentáveis, as vidas do maior número possível de conterrâneos.

Existe outra máxima, esta no meio jornalístico, que diz que o sujeito que não muda de opinião mesmo diante das evidências mais gritantes está brigando com a fotografia. Enquanto vivermos sobre a Terra, a experiência até aqui indica, os dias e noites se sucederão. E nossas escolhas de hoje, para o bem ou para o mal, continuarão a determinar o tipo de amanhã que teremos de encarar. Com essa fotografia, pelo menos, ninguém consegue brigar.
 

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