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LÚCIA HELENA CORRÊA

03/02/2014 | Comentários (0) | Memória | Por: Altamir Tojal

Lembro somente de palavras e coisas boas de Lúcia Helena Corrêa, do começo da nossa carreira de repórteres, um e outro encontro ligeiro na vida, mensagens de música e poesia, sacadas e comentários agudos a respeito do nosso país e nossa sociedade, sempre com a ternura e a esperança que se pode guardar no coração. Veio dela agora em dezembro:

no natal e em 2014,

finalmente, vou tomar coragem
pra dizer que te amo... meu bem.
e, salvo algum engano,
hei de te ouvir dizer... “também”...

vou jogar fora roupas,
sapatos, papéis velhos e as más lembranças.
mágoas? lá se vão pela janela!
ali, cara a cara com o espelho,
hei de me enxergar mais jovem e bela.

vou pendurar uma planta
no lugar do armário de remédios!
a dor, aquela?, nunca mais!
nunca mais tédio e solidão...
no jardim suspenso de orquídeas e violetas, nós todos voaremos aos pares, copiando a leveza amorosa das borboletas...

Amém!

A TODOS OS MEUS AMORES, realizados e platônicos, próximos e distantes, conhecidos e desconhecidos, já chegados e ainda por vir... feliz Natal e um 2014 iluminado!

Ficam no meu coração a querida Lúcia Helena, sua poesia, sua música, sua lição de vida.

Dirfarça e Chora, de Cartola – Intérprete: Lúcia Helena Corrêa, no show "Cartola, meu amor". Violão: Bráu Mendonça. Baixo: Ayrton Mugnaini. Cavaquinho: Getúlio Franco Ribeiro. Canta, Lúcia:

https://soundcloud.com/user5848520/disfar-a-e-chora-cartola
 

O jornal O Mícron e o movimento estudantil na Escola Técnica Nacional após o golpe de 64

28/08/2012 | Comentários (0) | Memória | Por: Altamir Tojal

As edições do jornal O Mícron publicadas em 1966 e 1967, portanto nos primeiros anos do golpe civil-militar de 1964, registram um momento do movimento estudantil no Rio de Janeiro e possivelmente antecipam sinais dos desdobramentos da resistência à ditadura nos anos seguintes e mesmo dos acontecimentos de 1968.

Publicado desde 1945 pela Agremiação Estudantil Técnica Industrial (AETI), da Escola Técnica Nacional (ETN), o jornal passou na época por uma completa reforma editorial e gráfica. As sete edições (números 47 a 53) publicadas no período apresentam uma ampla variedade de temas políticos e culturais.

Glauber e Feola - Além dos acontecimentos do movimento estudantil na escola e no país, o jornal tratava de política, cinema, música, teatro, futebol e outros temas. A edição 49, de junho de 1966, tem entrevistas de Glauber Rocha, que então preparava o roteiro do filme Terra em Transe, e de Vicente Feola, técnico da seleção brasileira de futebol, antes do embarque para a Copa na Inglaterra. A edição 53, de junho de 1967, teve 7 mil exemplares.

O Mícron teve dezenas de colaboradores nesse período, sob a liderança de Iuri Xavier Pereira, Carlos Alvarez Maia, Domingos Fernandes e Altamir Tojal. A idade média era 18 anos. A maioria dos colaboradores do jornal participava do movimento estudantil. Alguns eram apaixonados pelas idéias de revolução e liberdade e outros simplesmente queriam extravasar a inquietação e a rebeldia, traços comuns em uma parte da juventude na época.

Resistência à ditadura - Essa equipe deixou de editar o jornal no final de 1967. Isso aconteceu em meio ao aumento da repressão e à reorientação estratégica de parte da resistência à ditadura, na direção da luta armada. O período coberto por estas edições do Mícron foi prodigioso de iniciativas do movimento estudantil na escola, que foram noticiadas no jornal. Outras tantas atividades não puderam ser registradas devido à interrupção da publicação.

A ETN tinha sido rebatizada então como Escola Técnica Federal da Guanabara e logo depois Escola Técnica Celso Suckow da Fonseca. Tinha cerca de 5 mil alunos, a maioria de famílias de classe média baixa e proletárias dos subúrbios. Os estudantes completavam o curso secundário e se formavam em técnicos de diversas especializações, como mecânica, eletrônica, eletrotécnica e edificações.

Eleições acirradas - Desde antes de 1964, a AETI tinha uma ampla atuação associativa e uma agenda reivindicatória e política. Logo depois do golpe, o movimento estudantil na escola tornou-se mais ativo, sob influência, pela esquerda, de organizações como o Partido Comunista Brasileiro (PCB), Ação Popular (AP) e outras, que atuavam politicamente e disputavam as acirradas eleições da AETI com setores despolitizados e mesmo conservadores.

Estas edições do Mícron também revelam que, além da participação na AETI, as lideranças estudantis da ETN atuaram da reorganização da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários (AMES) e da União Nacional dos Estudantes Técnicos Industriais (UNETI), que tinham sido desestruturadas depois do golpe.

http://www.estemundopossivel.com.br/jornal-o-micron.php
 

 

PÁGINAS DE TABUADA

15/10/2010 | Comentários (0) | Memória | Por: Altamir Tojal

Escrevi este texto em novembro de 1996. Trata da cobertura de imprensa da criação no Brasil do mercado aberto de títulos financeiros, o 'open market', no início dos anos 70. Como fiz parte do time de jornalistas que cobriam o mercado na época, fui convidado, como outros colegas (1), a escrever um depoimento para a edição comemorativa dos 25 anos da Andima - Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto (2). Acho que a direção e a assessoria de comunicação da entidade foram felizes ao nos incluir na publicação. Este texto e os dos demais colegas registram um momento interessante da economia e da cobertura econômica pela imprensa. A publicação foi editada por Cláudio Accioli e Marilene Tapias, com projeto gráfico de José Mira.

PÁGINAS DE TABUADA

Repórter principiante, ainda no meio do curso, percebi que o jornalismo não é feito somente de manchetes sensacionais e coberturas emocionantes de crises no governo, revoluções, catástrofes e coisas do gênero.

De qualquer forma, a rotina de coletar cotações e taxas por telefone e as pequenas matérias de canto de página não apagaram o meu deslumbramento por estar trabalhando na redação do Jornal do Brasil. Estava na Editoria de Economia e tentava me consolar com o fato de que, pelo menos, não tinha de escrever sobre buracos de rua e batidas de automóveis, como os “focas” da Editoria de Cidade, por exemplo.

Em 1971, o Editor de Economia era Noênio Spinola. Ele percebera que os grandes jornais do exterior dedicavam amplos espaços não só às cotações das bolsas de valores, mas também às taxas financeiras. O JB, portanto, não poderia deixar de acompanhar este mercado. Eu parecia ser a pessoa ideal para o serviço porque antes tinha sido responsável por algo semelhante na newsletter editada pela Organização SN e, além do mais, sabia um pouco de matemática, o que não é o forte da maioria dos jornalistas.

Com o tempo, foi possível ir acrescentando pequenos textos àquela seção que mais parecia uma página de tabuada. Com a ajuda de “fontes” como Juarez Soares, César Manoel de Souza e Adolpho Oliveira passei a entender melhor o significado daqueles números. Tudo na economia era influenciado ou influenciava de certa forma o que se passava no mercado aberto. E, aos poucos, fui me defrontando com as notícias que existiam por trás das cotações.

Não eram as tais revoluções, mas eram fatos que mexiam com a vida das empresas, dos investidores e com um mundo de gente. Taxas de juros maiores ou menores tinham a ver com o nível de atividade e, portanto, com o emprego ou o desemprego. A correção monetária influenciava o salário, a caderneta de poupança, os aluguéis e a prestação da casa própria. O câmbio e o comércio exterior também eram afetados.

A coisa ia ficando cada vez mais interessante: a capacidade de endividamento externo dependia da administração da dívida pública; a política monetária era usada - ou deveria ser - em conjunto com a política fiscal, ou seja, podia aliviar a carga de impostos ou torná-la mais pesada. E o mais interessante de tudo: as crises e até mesmo as pequenas marolas políticas deixavam os operadores nervosos. Tinha gente que ganhava mais e outros menos. Alguns talvez até perdessem dinheiro.

Na ocasião já éramos vários jornalistas a cobrir diariamente o mercado aberto. A Andima ainda era uma pequena entidade, sem muita estrutura, e vivíamos disputando o interesse e a boa vontade do pessoal das mesas de operação e dos técnicos do Banco Central. Alguns se restringiam a nos dar alguma informação e outros acrescentavam interpretações e mensagens doutrinárias. Faziam as nossas cabeças a respeito dos rumos da política monetária, dívida pública e tudo o mais.

Tenho a impressão de que era uma cobertura grande demais mesmo considerando a importância do mercado aberto e todas as suas implicações. Pode ser que a censura ou a auto-censura ainda estivessem restringindo abordagens mais diretas das questões econômicas pela imprensa. Ou, talvez, fosse reflexo da pouca experiência do jornalismo econômico no país. Ou, ainda, pode ter sido uma cobertura agigantada pelas próprias deformações que a inflação impôs a todos nós nestas três décadas. Quem podia sobreviver sem acompanhar o cotidiano do mercado financeiro?

Alguns jornalistas sentem-se atores dos acontecimentos que testemunharam e cobriram. Por conta deste fenômeno de incorporação ou confusão entre o que se noticia e o que se vive, certa vez me percebi um tanto culpado por ter contribuído para a divulgação de um mercado que passou a se alimentar da inflação, produzindo a ciranda financeira, essa associação perversa entre governos irresponsáveis e o comportamento intuitivo e às vezes destrutivo do capital.

Paradoxalmente, sinto-me também orgulhoso por ter participado do começo do mercado aberto e me vejo um pouco como um dos seus pioneiros. Isso chega a ser irônico, considerando-se que meses antes de começar no JB cumpri um período de prisão acusado de tentar derrubar o governo e destruir as instituições capitalistas.

Hoje, longe das redações e da cobertura do mercado financeiro, me surpreendo com uma certa nostalgia quando revejo algum daqueles pioneiros na calçada da Rio Branco ou na mesa de um restaurante no centro da cidade. Com os seus erros e acertos, eles legaram ao país um mercado a altura dos centros financeiros mais sofisticados em todo o mundo. Parece inimaginável, agora, conviver com a globalização e perseguir a estabilização da economia brasileira sem dispor dos profissionais, dos mecanismos e das instituições que começaram a se formar naquela época.

(1) Rosa Cass, Alaor Barbosa, José Luiz Sombra, Randolpho de Souza, George Vidor, Gilberto Menezes Cotes, Cecília Costa e Reginaldo Heller.

(2) Desde 2009, a Andima integrou suas atividades às da Anbid, passando ambas a constituir a Anbima – Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais

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