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BOICOTE E CENSURA À IMPRENSA

08/04/2014 | Comentários (0) | Imprensa | Por: Altamir Tojal

Querem erguer novos muros de silêncio no Brasil antes mesmo de demolir os que a Ditadura impôs e estão de pé até hoje.

Alguns órgãos de imprensa começaram há pouco tempo a admitir que erraram ao apoiar o Golpe de 1964 e colaborar com a Ditadura Civil-Militar no Brasil.

Por conta desse passado, porta-vozes de uma corrente de opinião crítica à atuação presente dos principais órgãos de imprensa do país passaram a reiterar a proposta de “boicote” a diversos veículos.

A tímida autocrítica feita pela Folha de S. Paulo em seu editorial do dia 30 de março suscitou, por exemplo, o seguinte comentário no Facebook: “Acho que deveríamos começar uma campanha nacional de boicote à Folha e a todos os órgãos da grande imprensa (Zero Hora/RBS, Globo, Editora Abril/Veja) que participaram do golpe e/ou que o apoiaram depois e que ainda hoje têm o descaramento de justificá-lo, ainda que com ressalvas”.

Os veículos citados estão entre os que hoje publicam notícias sobre corrupção nos governos e estatais e sobre deficiências nos serviços públicos, má gestão da economia, entre outros temas que expõem erros dos que estão no poder.

Esses veículos são líderes em seus mercados e são criticados não é de hoje por concentrar poder demais através do controle de diferentes plataformas de mídia. Há também acusações de oligopólio e excessiva influência política. Como no Governo Lula, também no de FHC ocorreram discussões sobre o tema e foram redigidos projetos de regulação da mídia. Um complicador nesse processo é a influência efetiva que a própria mídia exerce na discussão.

Outro complicador é a atuação dos inconformados com o noticiário presente. Esses não estão nem aí para as distorções da propriedade cruzada de mídias eletrônica, nem para o vicioso sistema de concessões de radiodifusão e muito menos para os abusos da TV paga, quando se trata de proprietários de órgãos de imprensa que apoiam o governo pelo Brasil afora. E ainda muito menos estão preocupados com os abusos da propaganda pública e sua interferência nas eleições.

Esse é o pessoal que propõe o “boicote” e atua na web e na mídia chapa-branca, xingando os profissionais de imprensa de “vendidos à burguesia” e os veículos críticos aos governos de “golpistas” e “fascistas”.

A proposta de “boicote” é recorrente nos últimos anos e merece reflexão. Está em linha com a campanha que preconiza o “controle social” da mídia por delegados do poder e espalha na sociedade a suspeita, a antipatia e o ódio ao trabalho dos jornalistas em geral e aos que não são chapa-branca em particular.

CONTA A ACERTAR

É bom para a sociedade e o país que pessoas e instituições reconheçam o protagonismo, a cumplicidade e a omissão na Ditadura. Esse é um processo que por diversas razões vem ocorrendo tardiamente e a conta-gotas no Brasil.

Agora, 50 anos depois do Golpe, as Forças Armadas anunciaram que vão investigar torturas e mortes em algumas unidades militares. Estive preso no quartel da Polícia do Exército da rua Barão de Mesquita, no Rio, e em dois outros da Vila Militar, entre 1970 e 1971. Sei o que aconteceu.

O reconhecimento, mesmo tardio, de que a tortura e o assassinato de opositores foi uma política de estado praticada nos quartéis é uma dívida das Forças Armadas para com os que sofreram na carne, para com os que morreram e suas famílias e para com a sociedade. Somente depois disso estará aberto o caminho para o restabelecimento pleno do respeito e admiração dos brasileiros às instituições militares.

Todas as pessoas e instituições que apoiaram a Ditadura têm essa conta a acertar com a sociedade. Algumas têm a cara de pau de se apresentar como combatentes da resistência democrática. Políticos que estão hoje no poder e empresários que não deixaram de se beneficiar dos sucessivos governos foram protagonistas e cúmplices da Ditadura.

A rigor, a sociedade brasileira tem contas a acertar consigo mesma. O fato é que grande parte apoiou o Golpe e depois se acomodou e aplaudiu a Ditadura mesmo nos momentos de maior truculência. Hoje é muito barato falar em resistência democrática. Recomendo ler as pesquisas e reflexões do historiador Daniel Aarão Reis sobre o tema. Um bom começo é o livro ‘Ditadura e Democracia no Brasil’, que acaba de ser lançado.

Muita água ainda tem de rolar nessa cachoeira. Serão necessárias muitas “comissões da verdade” para passar essa história toda a limpo. Não foi somente nas Forças Armadas, na polícia e na imprensa que houve participação, adesão e omissão na Ditadura. É preciso investigar mais a fundo o que ocorreu na administração pública, nos partidos, no Legislativo, no Judiciário, no mundo empresarial, nas instituições de ensino, nas entidades de classe e por aí vai. São muitos muros de silêncio a serem derrubados.

IMPRENSA SUBMISSA

O que ocorreu na imprensa brasileira durante a Ditadura?

Praticamente toda a imprensa apoiou o Golpe Civil-Militar de 64. As exceções foram os jornais da esquerda, que deixaram de circular no dia seguinte. Dos grandes jornais, a Última Hora apoiou Jango, mas foi empastelada, incendiada e foi sendo calada. O Correio da Manhã apoiou o Golpe, mas fez oposição à Ditadura desde a primeira hora. Foi pressionado, ameaçado e submetido à asfixia comercial e financeira até fechar. Os órgãos públicos deixaram de anunciar. As empresas que insistiam em anunciar eram forçadas a parar por pressão do governo, inclusive com ameaça de corte de crédito nos bancos públicos.

Depois, todos os grandes veículos de comunicação sofreram censura e apoiaram a Ditadura mais ou menos descaradamente, por mais ou menos tempo, alguns mais por convicção outros mais por interesse ou por medo. Fui testemunha como cidadão, como leitor, como ouvinte e telespectador. E também como jornalista. Trabalhei no Jornal do Brasil entre 1971 e 1976. Lá presenciei inúmeras situações vergonhosas de submissão à Ditadura, algumas constrangidas, outras não. Foi a chamada “imprensa alternativa” que cumpriu o valente papel de resistência sob censura e toda sorte de violência.

Hoje, como as Forças Armadas e outras instituições, a imprensa paga o preço da adesão à Ditadura e tem de aprofundar a autocrítica não somente com admissão de culpa e desculpas, mas principalmente com o comprometimento efetivo com a democracia e a liberdade. Isso passa, inclusive, por aceitar o debate em torno da mudança nas regras do setor para desmontar a concentração do controle das diferentes plataformas, um sistema de concessões republicano e uma regulação democrática, o que não tem nada a ver com o projeto de “controle social” por delegados do partido no poder.

CENSURA SEM CERIMÔNIA

Mas o que significa hoje “boicote” a um veículo de comunicação?

Imagino que o ideólogo e o promotor do “boicote” não pretendem convencer quem deseja se informar de deixar de ver, ouvir e ler o veículo que bem entende, o jornalista de sua preferência, a matéria ou artigo do seu interesse. Fora isso, o que seria o “boicote”? Seria, talvez, impedir um jornal ou uma revista de circular, tirar uma emissora, um portal ou um blog do ar? Ou, quem sabe?, vetar um ou outro jornalista ou blogueiro? Ou prendê-lo? Seria cortar anúncios do governo? Perseguir os outros anunciantes? Ou queimar o que acham que não deve ser lido, como fizeram os animados manifestantes no dia 25 de fevereiro passado na Cinelândia, na tradição de nazistas e inquisidores.

“Boicote” aqui é mais uma daquelas palavrinhas usadas sem cerimônia para esconder propostas inaceitáveis. Em bom português, é pura e simplesmente uma forma covarde de propor a censura.

Querem erguer novos muros de silêncio no Brasil antes mesmo de demolir os que a Ditadura impôs e estão de pé até hoje.
 

ATO POR SANTIAGO ANDRADE NESTE DOMINGO, 16 DE FEVEREIRO, 10H, EM IPANEMA, RJ

15/02/2014 | Comentários (0) | Imprensa | Por: Altamir Tojal

POR SANTIAGO ANDRADE
CONTRA A VIOLÊNCIA EM MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS
GARANTIA AO TRABALHO DE REPÓRTERES, FOTÓGRAFOS E CINEGRAFISTAS
ATO PÚBLICO NESTE DOMINGO, 16 DE FEVEREIRO, DE 10H ÀS 12H, NO POSTO 9, IPANEMA, RJ.

A morte do colega Santiago Andrade é uma tragédia para jornalistas e a sociedade e um alerta para a necessidade de garantia ao trabalho de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas em manifestações públicas. Vamos nos encontrar neste domingo para homenagear Santiago e também para exigir mais segurança ao trabalho dos jornalistas e paz nas manifestações. Vamos fazer um ato simples, sem palanque, microfone, carro de som, sem precisar de dinheiro de ninguém nem da estrutura de entidades. Cada um vai de camiseta branca, com uma fita preta no peito, e leva o seu próprio cartaz. Vamos fazer um minuto se silêncio por Santiago, refletir e conversar sobre estes acontecimentos e desafios. Se der, vamos falar também sobre a situação de nossas representações de classe, que têm dado respostas aquém das necessidades e expectativas. Vamos também fazer um apelo pela solidariedade da população. A liberdade de imprensa é um direito da sociedade e cada cidadão deve ser convocado a defender proteger o trabalho dos jornalistas. Até lá! Se não nos encontrarmos agora, daqui a pouco tem Carnaval, Copa, Eleições...

EVENTO AGENDADO PELO GRUPO JORNALISTAS RJ:
https://www.facebook.com/events/481974608573518/?ref_newsfeed_story_type=regular
 

ATOS FASCISTAS CONTRA A IMPRENSA EXIGEM UMA RESPOSTA DA SOCIEDADE

15/08/2013 | Comentários (0) | Imprensa | Por: Altamir Tojal

“É preciso que outras vozes se levantem contra tamanho absurdo, antes que algo ainda mais grave aconteça.”

NOTA: Posicionamento do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, em 14 de agosto de 2013.

A liberdade de imprensa corre perigo. A situação está cada vez mais grave para os jornalistas que cobrem, ou melhor, que tentam cobrir as manifestações de rua, no Rio de Janeiro. Um pequeno grupo de manifestantes, no melhor estilo de milícias fascistas, passou a intimidar rotineiramente as equipes de jornalismo. Nos protestos de segunda-feira 12/8 em frente ao Palácio Guanabara, em Laranjeiras, várias equipes foram acuadas e impedidas de trabalhar. Um repórter cinematográfico da TV Bandeirantes chegou a levar um soco nas costas.

Não foi para isso que lutamos contra a ditadura que durante 21 anos perseguiu a imprensa, prendeu, torturou e assassinou tantos brasileiros. Entre eles, jornalistas.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro tem condenado, com veemência, esse grupo de manifestantes que decidiu que é o dono da verdade. E que com atos de violência acaba afastando dos protestos – legítimos, é importante dizer — boa parte da população que teme esse comportamento e não concorda com ele.

Os jornalistas têm o direito e o dever de trabalhar. Tentar impedir isso, sob qualquer pretexto, é acima de tudo uma estupidez. Sem a imprensa presente, o público não toma conhecimento do que se passa nas ruas, inclusive de eventuais atos de truculência de policiais contra manifestantes. Agredir jornalistas, queimar carros de reportagem são atos que nos fazem lembrar tempos sombrios, e não apenas em nosso país.

A sociedade, de um modo geral, deve estar atenta a esse perigoso caminho que está sendo trilhado por grupelhos fascistas. É preciso que outras vozes se levantem contra tamanho absurdo, antes que algo ainda mais grave aconteça.

Contra a demonização da imprensa

15/08/2013 | Comentários (0) | Imprensa | Por: Altamir Tojal

“A rejeição automática a tudo o que se produz na grande imprensa é um sentimento particularmente caro aos estudantes de jornalismo empenhados na articulação de alternativas ao modelo dominante, eventualmente estimulados por professores que adotam o mesmo discurso simplificador.”

NOTA: Este artigo de Sylvia Debossan Moretzsohn foi publicado na edição 758 do Observatório da Imprensa, de 6 de agosto de 2013. A autora é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense.

No debate realizado na terça-feira (30/7) no programa do Observatório da Imprensa, o representante da Mídia Ninja reiterou o que já havia dito em outras ocasiões: que não apoia a hostilização da grande imprensa, tal como vem acontecendo nas manifestações iniciadas em junho, embora considere que “muita gente na rua” possa entender, “às vezes até em uma visão um pouco simplificada, um pouco ingênua, que a mídia é uma grande conspiração”.

A condenação, entretanto, não ultrapassa o limite do comentário. E a hostilização não é de “muita gente na rua”, falando assim genericamente, embora decerto “muita gente” vá na onda.

O exemplo mais recente ocorreu na manifestação convocada pelo Black Bloc em São Paulo, na quinta-feira (1/8), quando militantes investiram violentamente contra repórteres e funcionários a serviço de grandes redes de TV. Pode ter sido mais uma “performance”, como representantes do grupo classificam suas costumeiras ações de depredação do patrimônio público e privado: é o que destaca a CartaCapital, numa entrevista pingue-pongue em que aceita o anonimato da fonte, algo impensável para o jornalismo até recentemente.

Atacado, o repórter Fábio Pannunzio, da Band, condenou os agressores em seu blog e logo recebeu uma avalanche de críticas, tanto em seu próprio espaço quanto no Facebook.

Não é surpresa, é apenas uma constatação: a internet está longe de ser um ambiente propício ao debate. Porque favorece o imediatismo, facilita as leituras desatentas, as reações irrefletidas e as conclusões precipitadas, especialmente em tempos de radicalização como os que estamos vivendo. Em vez de argumentos, proliferam os insultos. E a lógica binária, rasteira, simplificadora: quem não está conosco está contra nós.

Protestos antigos
A rejeição automática a tudo o que se produz na grande imprensa é um sentimento particularmente caro aos estudantes de jornalismo empenhados na articulação de alternativas ao modelo dominante, eventualmente estimulados por professores que adotam o mesmo discurso simplificador.

Porém, quem está chegando agora talvez ignore que o povo não é bobo há pelo menos três décadas, quando as Organizações Globo foram acusadas de participar da fraude do caso Proconsult, que tinha por objetivo barrar a vitória de Leonel Brizola na disputa pelo governo do Rio, nas primeiras eleições diretas desde o golpe militar, ainda durante o governo do general João Figueiredo: naquela ocasião, em 1982, como na campanha pelas Diretas, em 1984, na greve dos metalúrgicos de Volta Redonda, em 1988, e na campanha de Lula em 1989, o slogan “abaixo a Rede Globo” foi cantado a plenos pulmões.

Carros e jornalistas da empresa – TV, jornal, não importa – eram atacados. Era um tempo de particular polarização ideológica, no longo e lento processo de saída da ditadura. O público, especialmente os militantes, via as aparências: os repórteres, seus crachás, seus microfones, os carros com o logotipo odiado. Não via, não podia ver, os conflitos nas redações, a luta de muitos profissionais para driblar a censura interna.

O livro Jornalistas pra quê? Os profissionais diante da ética, que o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro publicou em 1989, reproduz um debate entre assessores de imprensa de candidatos à presidência da República muito revelador desses bastidores.

Os que estão chegando agora talvez se surpreendam com o comentário de Ricardo Kotscho, então assessor de Lula, sobre a perseverança de uma repórter da sucursal do Globo em São Paulo: era a primeira a chegar, a última a sair, escrevia muito e não publicavam nada, mas ela não desanimava porque o material ia para a Agência Globo e seria reproduzido em outros jornais pelo país.

Se os operários que se aglomeravam na porta das fábricas para ouvir Lula naquele tempo resolvessem impedir o trabalho dessa repórter, estariam agindo contra seus próprios interesses.

Em nome da liberdade
Este exemplo, já distante no tempo, é apenas para mostrar que as coisas são, sempre foram, mais complicadas do que parecem.

O jornalismo da Globo, como o de outras empresas, mereceu críticas contundentes pela cobertura das manifestações de agora. Mas foi também esse jornalismo – como notou a ombusdman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer (30/7) – que obteve as informações definitivas para demolir a acusação contra o jovem preso por supostamente atirar um coquetel molotov contra a tropa na noite do último protesto em frente ao Palácio Guanabara, ao conseguir cópia do inquérito em que o policial autor da prisão desmentia a versão oficial. Também foi a Globo que editou imagens próprias e oriundas das redes sociais – como as transmitidas pela Mídia Ninja – atestando que o rapaz não carregava mochila.

Só fez isso porque foi confrontada com as cenas que já circulavam na internet? Talvez, embora, como sempre, as intenções importem muito menos que as ações. Mas, se foi assim, isso só demonstra que, melhor do que hostilizar a grande imprensa, é forçá-la a abrir espaço para outras versões dos fatos.

É óbvio que as grandes corporações de mídia têm interesses que as levam a descumprir recorrentemente seus belos princípios editoriais. Mas também deveria ser claro que não se trata de estruturas monolíticas, impermeáveis aos conflitos que eclodem na sociedade, às vezes com força inusitada. Por isso, vociferar slogans contra essas grandes corporações, em vez de significar uma sólida consciência política, pode ser expressão de uma profunda ignorância. E passar das palavras aos atos, agredindo jornalistas e inviabilizando seu trabalho, é uma atitude incompatível com a ordem democrática e incoerente com os princípios de quem diz defender a liberdade.

Adeus, fascistas mascarados!

15/08/2013 | Comentários (0) | Imprensa | Por: Altamir Tojal

"Um grupo me cercou, tentou tomar meu microfone e passou a me atacar fisicamente. Deram cotoveladas, caneladas e chutaram meu joelho. É horrível ser cercado por uma alcateia raivosa, que baba de ódio de tudo e te enxerga como inimigo a ser eliminado."

NOTA: Relato publicado no Blog do Pannunzio em 2 de agosto de 2013. O autor, Fábio Pannunzio, é jornalista há 30 anos. Iniciou sua carreira na Rádio Jovem Pan de São Paulo em 1981. Depois, atuou nas principais redes de televisão do País. Atualmente é repórter da Rede Bandeirantes de Televisão e apresentador-substituto dos dois principais telejornais da emissora. Vale ler as dezenas de comentários publicados sobre o texto no blog.

Ontem fui destacado para cobrir a manifestação convocada pela página Black Bloc do Facebook. Estive com os manifestantes desde as cinco horas da tarde, quando eles começaram a se concentrar em frente à Prefeitura de São Paulo.

Acompanhei todo o trajeto da marcha até a Avenida Paulista. Vi quando um policial agrediu, sem nenhum motivo e de forma covarde, pelas costas, uma manifestante que subia a Brigadeiro Luís Antônio.

Anotei um fato importante, que deveria inspirar alguma reflexão por parte da entidade que comanda os jovens que, de rosto coberto, protestam contra… Contra o que, mesmo ?

Percebi que alguma coisa mudou radicalmente desde o início da safra de protestos. Quando saiu do Centro, a manifestação tinha cerca de 500 participantes. Quando chegou à Paulista, tinha os mesmos 500.

Um bando de mascarados forma uma imagem bastante simbólica. Uma imagem forte, que atrai o olhar de quem passa ao lado. Por isso, muita gente ao longo do trajeto parava sobre os viadutos, se debruçava sobre as fachadas dos prédios, para ver o cortejo.

Mas ninguém aderia. Não era como antes, quando o coro “vem pra rua, vem, você também” funcionava como um catalisador e ia agregando milhares à multidão. Agora, os mascarados formam um grupo monolítico, hermético, impermeável à sociedade. Um grupo cuja beligerância mais afasta do que congrega. Por isso eles saíram e chegaram do mesmo tamanho.

Mais uma vez, houve muitas hostilidades contra jornalistas e técnicos das empresas de comunicação. A primeira vítima da ira dos arruaceiros foi o motociclista da equipe de moto-link da Band. Ele foi empurrado e derrubado. Ameaçaram linchá-lo e depredar seu equipamento. Isso só não aconteceu porque um grupo de manifestantes contrários à prática da violência (contra pessoas) interveio.

Logo adiante, eu mesmo acabei me transformando em alvo da ira daquela turba. Um grupo me cercou, tentou tomar meu microfone e passou a me atacar fisicamente. Deram cotoveladas, caneladas e chutaram meu joelho. É horrível ser cercado por uma alcateia raivosa, que baba de ódio de tudo e te enxerga como inimigo a ser eliminado.

Senti-me ultrajado com a intimidação. Não é possível que um jornalista não possa exercer seu ofício em plena rua de um País livre e democrático. Resolvi resistir ao expurgo, finquei pé e enfrentei os arruaceiros. O clima ficou péssimo. E só não foi pior porque, mais uma vez, alguns anjos-da-guarda mascarados vieram em meu socorro. Agradeço imensamente sua intervenção.

Mas ela só aconteceu depois que os vândalos já haviam danificado o microfone, impossibilitando a continuação do meu trabalho.

Quando me deitei, horas depois, a imagem daqueles pares de olhos de onde crispavam ofensas por detrás de capuzes e balaclavas não me saía da cabeça. Os gritos, as ameaças, a coação, as estocadas. A covardia de quem tapa o rosto para ganhar coragem de enfrentar o que não consegue enfrentar de cara limpa.

Sabe o que parece? A Ku Klux Klan vestida de preto. É isso que parece: a KKK pós-moderna – um grupamento fascista e antidemocrático que não tem nenhuma proposta construtiva. Destruir é a palavra-chave. Destruir os governos, as instituições, o capitalismo, a liberdade de imprensa. Para por o que no lugar ? Eles não sabem. Só querem destruir.

O que é o Black Bloc? Uma “estratégia”, como essa gente se auto-define. Mas uma estratégia sem um objetivo. O meio sem um fim, sem um propósito que se possa vislumbrar.

Para mim, são apenas um bando de idiotas comandados por alguém que de longe inspira suas mentes. São robôs a serviço de uma página do Facebook, um exército de mentes vazias que atende prontamente ordens de comando vindas de uma entidade eletrônica incorpórea. Uma tropa sem general, um exército de Don Quixotes que confunde uma bacia de barbeiro da democracia com o Elmo de Mambrino do fascismo. E que vai compondo sua “Má Figura” como um mosaico assustador, que as pessoas têm medo de enxergar.

Quem é que constrói suas bandeiras ? Quem é que constrói a agenda que os pauta ? Eles mesmos não sabem. São uns robozinhos teleguiados pela internet fazendo arruaças niilistas.

Pois bem. Entendi, finalmente, que nós, jornalistas, não somos bem-vindos à República dos Mascarados. Nela, não vigora a nossa Constituição. Não existem as salvaguardas do Artigo Quinto. A liberdade é tão escassa quanto os negros e pardos.

Não é apenas a ordem jurídica e o sistema que eles querem suplantar. Se pudessem, revogariam a Lei de Talião, o Código de Hamurabi, o processo civilizatório. Em seu lugar, instaurariam um sociedade de bárbaros, uma colmeia de abelhas em que as operárias não trabalham, as soldados não combatem, as rainhas não põem ovos.

Por tudo isso, estou fora dessas manifestações. É uma capitulação assumida. Falo isso com a autoridade moral de quem foi o primeiro jornalista a declarar apoio às manifestações do Movimento Passe Livre.

Desejo aos equivocados de boa-fé sorte na construção de seu projeto político, seja ele qual for. Não vou mais a essas marchas, nem como cidadão, nem como jornalista. Se não me querem, agora eu também não os quero mais.

E antecipo uma promessa: se um dia se saírem vitoriosos, hipótese que beira o absurdo, há de restar para mim um canto neste planeta imenso em que as pessoas não estejam suscetíveis a esse vírus fascista que se espalha pela internet para contaminar mentes humanas. Que reduz cérebros humanos a meras extensões de uma virtualidade deletéria, como se fossem HDs externos rodando um software alienígena.

 

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