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Belo é o Recife

12/02/2013 | Comentários (0) | Filmes | Por: Altamir Tojal

‘O som ao redor’, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, “é um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo”.

Artigo de Caetano Veloso.

NOTA: O Som ao Redor é mesmo um acontecimento. O medo como modo de vida no nosso Brasil potência. A química bem resolvida de sensualidade, tensão, suspense e crítica. Uma coleção de cenas antológicas: a trepada com a lavadora, o desconto assombração e por aí vai. Show de cinema! O artigo a seguir, de Caetano Veloso, é uma bela homenagem a esta bela obra.

Nesta Bahia maltratada, vi, sozinho, o filme de Kleber Mendonça Filho e fiquei estarrecido. Raramente um diretor encontra com tanta precisão o tom do filme que deve e quer fazer. “O som ao redor” é um desses raros momentos em que tudo acontece de modo adequado sem que a obra seja apenas suficiente: o filme transcende, inspira, ensina e exalta. Ensina aprendendo. Esperando o jeito de dizer surgir dos atores e dos não atores como confirmação da sabedoria na construção dos diálogos. Não há pontes nem Marco Zero, não há sobrados nem maracatu. Mas os prédios feios, as decorações tolas, a fantasmagórica percepção do dia a dia dos recifenses de agora deixa entrever todas as nuances da sociedade pernambucana, de toda a sociedade brasileira mirada daquele ângulo. Todo o horror mas também toda a beleza se revela a cada lance de montagem, a cada som de máquina ou de voz, a cada escolha de ponto de vista.

A “Festa” de Gonzaguinha — imperdoavelmente ausente do bom “Gonzaga de pai para filho” — está presente aqui, mesmo sem ser ouvida. A começar pela própria existência do filme. Que um filme assim tenha sido feito em Pernambuco, com gente de lá e por gente de lá, é prova da beleza intrínseca que se possibilita nessa quina nordestina do Brasil.

Ouvir a canção (ou paródia de canção) carnavalesca baiana irritando alguns moradores e trabalhadores desses prédios das redondezas da Boa Viagem (“Perigo de tubarões”, diz uma placa), isso dentro do cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves, é experimentar uma espécie peculiar de iluminação. A mãe de família interpretada pela extraordinariamente sexy Maeve Jinkings é de tirar o fôlego e de apertar o coração. A sobriedade e a profunda verdade de cada milimétrico gesto de Irandhir Santos preparam a cabeça do espectador para estudar tudo o que o filme tem a dizer. E o sotaque pernambucano!... As nuances das diferenças da língua entre gerações e extrações sociais. Os mais jovens e mais urbanos palatalizam mais os tês e os dês. O nome do primo encrenqueiro de João é tudo entre Dinho e Dginho na escala que vai do avô coronel ao primo cosmopolita.

Em “Gonzaga de pai para filho” há pernambuco e há cinema. Ainda não vi “A febre do rato”. “Gonzaga” não é um filme pernambucano. Em “Gonzaga” falta Ivan Lins e o MAU, falta Som Livre Exportação, sobretudo falta “Festa”, o elo perdido entre o filho e o pai. Canção que é também uma obra-prima. Em “O som ao redor” ela ecoa forte, à roda dos sons divinamente editados, dos pátios dos edifícios, da trilha magnífica de DJ Dolores, do mar barrento. Um tal filme ter sido feito no Recife diz da beleza que ele é. Não senti falta, em “Gonzaga”, da menção ao papel secundário e pequeno que o movimento tropicalista desempenhou na redescoberta de Gonzagão pelo público jovem da época. Eu teria posto algo a respeito apenas do “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, show que, acho, Waly Salomão dirigiu no Terezão (por que, aliás, mudar o nome do Tereza Rachel para Net Rio? A Net poderia manter o nome consagrado — ou assumir logo Terezão — e colocar-se como patrocinadora: um dia essas empresas vão ver que não é gostoso ter teatros e casas de espetáculos com nomes tipo Credicard Hall, ATL Hall, American Airlines Arena…), mas a ausência de “Festa” é sintoma de falha do roteiro. Ouço-a ao ver “O som ao redor”. Onde, aliás, o tropicalismo recebe uma homenagem que só não considero imerecida porque, sendo a escolha tão profundamente pensada e a inserção do trecho da gravação tão incrivelmente bem feita, minha reação é de gratidão infinita por ter minha voz, minha pobre voz, fazendo parte desse filme. Mais do que a minha, a voz transcendental de Jorge Ben. Mais do que ela, seu violão. Mais do que o violão, a canção e o que ela sugere.

Não posso deixar de pensar em Eduardo Campos e na seriedade da política em Pernambuco. Eu aqui nessa Bahia maltratada. Sou o cara que canta a peça de axé hilária que soa no filme. Sou o cara que a compõe. Fico, do meu canto, esperando qual será a consequência dos planos de Carlinhos Brown de abrir espaço especial para os blocos afro no carnaval de Salvador. Ele sempre enriquece a cultura popular da cidade. Não vai ser para este ano, como eu esperava. Clarindo não será, como imaginávamos e queríamos seus admiradores, o subprefeito do Pelourinho. Mas Neto deve saber o que está fazendo. E Clarindo há de ver dias (e noites) melhores na Cantina da Lua.

“O som ao redor” é um dos melhores filmes brasileiros de sempre. É um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo. Gonzaga, Brown, Clarindo, axé, Glauber, Ivan Lins, todos se engrandecem com isso. Deve-se isso ao tom encontrado por Kleber.

http://oglobo.globo.com/cultura/belo-o-recife-7405983#ixzz2Kh5xD9UT

CONDOR, O FILME

09/06/2008 | Comentários (0) | Filmes | Por: Altamir Tojal

Partidarismo e sentimentalismo são, neste caso, virtudes e não defeitos. O filme reforça, com alta dose de humanidade, o seu conteúdo histórico e político.

O filme Condor, de Roberto Mader, é uma obra que toma partido: traz à luz (e esta exposição é por si só uma denúncia) um caso de terrorismo de estado ocorrido há pouco tempo, aqui mesmo no Brasil e nos países vizinhos do Cone Sul, materializado na aliança das ditaduras militares que dominaram a região entre os anos 60 e 80. Essa ação conjunta deixou um enorme saldo de assassinatos, prisão e tortura de adversários, além de "desaparecidos", entre os quais muitas crianças roubadas de seus pais.

Condor é um documentário. E como tal tem sido aplaudido e premiado, seja pela escolha do tema, seja pela qualidade jornalística da investigação, da pesquisa e das entrevistas. Estas trazem revelações e sentimentos extraídos de protagonistas históricos dos dois lados - se assim podemos nos referir a uma luta tão assimétrica - e de personagens trágicos, alguns dos raros jovens-adultos que puderam ser identificados e confrontados com suas famílias naturais, entre aqueles inúmeros bebês criados em outros lares, com outra identidade.

Há uma virtual unanimidade quanto a estas virtudes do filme. Mas há restrições e condenações, que recaem sobre o seu partidarismo e, também, sobre a exploração sentimental do drama das crianças seqüestradas e de suas famílias, as que ficaram sem os seus e as que passaram a viver a ameaça de perdê-los e a realidade de ter de compartilhá-los com aqueles estranhos e sofridos pais, avós e irmãos de "desaparecidos" encontrados.

Entendo que partidarismo e sentimentalismo são, neste caso, virtudes e não defeitos. Qual é o jornalismo que não toma partido? Que jornalismo funciona sem emoção?

Comecemos pelo partidarismo. Quando saí do cinema depois de ver o filme e fui tomar um café, uma senhora me abordou no balcão do bar da Casa Laura Alvim e perguntou se eu gostara do filme. Foi como se ela me despertasse de supetão. Eu ainda estava emocionado, na atmosfera daqueles acontecimentos. Respondi que sim, que tinha gostado. Ela retrucou. Disse que o filme condenava as ditaduras militares, mas era indulgente com os movimentos e as pessoas que pretendiam impor ditaduras de esquerda como a de Fidel.

Respondi que, a meu ver, um mal não deve justificar outro mal, que a existência ou a ameaça de ditaduras comunistas não são razões suficientes para a instauração de ditaduras de direita ou quaisquer que sejam. Bem, não conseguimos concordar.

Acrescento agora: quem acreditar que não tem escolha entre o mal e o mal, que assuma as conseqüências. Quem jamais esteve nessa encruzilhada?

O filme de Mader trata de uma história obscura e esquecida. É possível que a grande maioria dos jovens e mesmo dos não tão jovens não saibam ou não lembrem o que foi a "Operação Condor". Temos aqui um dos bons serviços prestados pelo filme: ele lembra e ensina que este foi o nome dado à cooperação entre as ditaduras militares sul-americanas para seqüestro, prisão e assassinato de seus oponentes. Também lembra a uns e ensina a outros que havia na época um conflito globalizado opondo as potências ocidentais e o comunismo soviético, e que este conflito influenciava e atuava sobre as disputas políticas regionais e locais, como as que ocorriam em nosso continente.

Estamos falando de um filme, de um documentário, não de uma aula de sociologia, mas vale registrar que ele ainda ensina e lembra que havia movimentos revolucionários comunistas, alguns propondo o uso da força, e havia governos democráticos eleitos e com forte apoio popular a seus projetos de mudanças sociais. Em nome de combater aqueles movimentos, os militares e seus aliados derrubaram esses governos pela força e impuseram a repressão e o terror político não só aos comunistas e àqueles que ousavam enfrentá-los, mas a toda a sociedade.

Vivi intensamente aquela era e não poderia deixar de ser tocado e levado a lembranças e reflexões. Eu era um garoto politizado em 1964, como outros poucos. Militava no movimento estudantil. Naquele final de março e início de abril me entreguei febrilmente a comícios e frágeis barricadas para resistir ao golpe. Sofri, então, a minha primeira e maior derrota política. Depois dos primeiros momentos de choro, raiva e de medo, voltei a me reunir com um punhado de colegas da minha e de outras escolas, todos meninos de 16 e 17 anos. Lembro que nos encontramos num fim de tarde na escadaria da Biblioteca Nacional. Havia, na Cinelândia, uma mobilização de gente a favor do governo militar, com faixas e alto-falantes. Ficamos ali refletindo sobre aquilo, sobre o que iríamos fazer, e não saía do meu coração o pavor de passar o resto da vida sob uma ditadura.

Este sentimento talvez seja uma chave para a compreensão dos movimentos de resistência às ditaduras daquela época. Alguns de nós (ou todos) talvez quiséssemos mesmo uma revolução - comunista ou lá o que fosse - mas também não suportaríamos a condição de viver sem liberdade. Muitos de nós, não tenho dúvida, seríamos os primeiros a insurgir se a tal ditadura comunista acontecesse.

Enfim, Condor é mesmo um filme partidário, que lembra, ensina e provoca reflexões, que podem nos ajudar a compreender o passado e talvez o presente. É também um alerta contra tentações políticas, aventuras e supostas soluções que ameaçam e sacrificam a liberdade e a democracia. O que significam hoje a Guerra do Iraque, Guantânamo e a exacerbação do controle em escala global (sobre indivíduos e sociedades) em nome do combate ao terrorismo fundamentalista árabe?

Condor também nos emociona com sofridas histórias de vida, histórias de superação, esperança e, ainda, de perplexidade, que reforçam o conteúdo histórico e político do filme com alta dose de humanidade.

Cheiro de ralo, o filme

02/05/2007 | Comentários (0) | Filmes | Por: Altamir Tojal

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É a melhor representação que vi até hoje da universalização do cinismo e da banalização da crueldade.

O cheiro de ralo está na atmosfera desde que o homem se inventou. Mas agora não é evitado nem escamoteado. Deixa de incomodar, perturbar. Passa a ser natural. O protagonista, Lourenço, descobre e admite que gosta do cheiro, ama o cheiro. É o seu vício. Não vive sem o cheiro.

Algumas pessoas ficam perturbadas com o filme, o que considero um dos efeitos máximos que a obra de arte pode produzir.

Arte da boa, o filme se oferece a interpretações e explicações múltiplas. O cheiro de ralo provoca o discurso. Obriga a pensar e leva a enunciados diversos. É uma denúncia da coisificação pós-moderna. Uma crônica sobre os limites da dignidade humana. Uma alegoria da podridão que grassa no Brasil. E também, claro, uma representação da universalização do cinismo e da banalização da crueldade.

É tudo isso e muito mais. E tudo isso é a mesma coisa. É o cheiro. Tudo é coisa: pessoas, desejos, sentimentos, objetos. Tudo está à venda. Ao protagonista não interessa o que não pode ser comprado. Tudo tem de ser comprado para ter valor. O mais cruel é que Lourenço prova a sua visão. Tudo e todos têm preço. Elementar: é uma tese autodemonstrada para quem tem nas mãos a faca e o queijo.

O cheiro está à nossa volta e dentro de nós. Quem sabe também quero o cheiro? Gostar do cheiro é perder a capacidade de resistir. É entregar os pontos. Aderir.

Mas a resistência escapa e desafia. A resistência vive no cheiro. É a perturbação que a obra provoca. O filme, ele próprio, é resistência.

Heitor Dhalia, Lourenço Mutarelli, Selton Mello, Marçal Aquino e toda a equipe de criação e produção tiveram um daqueles raros e felizes encontros que resultam numa arte inquietante, de arrepiar.

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