Altamir Tojal

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HORA DE DOBRAR A APOSTA NA POLÍTICA

04/06/2017 | Comentários (0) | Política | Por: Altamir Tojal

A sobrevida do governo Temer é campo fértil para a aventura populista

Comentei outro dia numa conversa que democracia e certeza são coisas que não combinam. E lembrei na mesma hora de Hannah Arendt tratando do caráter imprevisível da política e de sua dimensão para além dos negócios de governo.

Antipetista, meu interlocutor admitia que Temer vai mesmo cair. Mas preferia que ele ficasse até a definição de um democrata para substituí-lo, alguém que trouxesse a certeza de que o país não será entregue a um populista de esquerda ou direita. Entre os seus temores, o de o brasileiro ter de optar entre Lula e Bolsonaro na próxima eleição.

AVANÇO DO POPULISMO

Penso exatamente o contrário. É claro que esse dilema pode se impor em diferentes cenários, seja com eleições antecipadas ou não. Mas creio que ele será mais provável na medida em que o governo Temer demorar a cair.

Cada dia a mais com Temer no poder mais conturbadas deverão ser as eleições de 2018 e maior será o avanço eleitoral dos populismos de esquerda e direita, aniquilando as chances de alternativas democráticas.

Quanto mais tempo durar a blindagem de Aécio Neves, flagrado pedindo propina à JBS e armando contra a Lava Jato, maior é a ameaça de jogar por terra o trabalho da Força Tarefa para processar Lula como chefe da organização criminosa petista.

O sucesso — felizmente cada vez mais improvável — da articulação para salvar Temer e Aécio também é ruim, a meu ver, para a retomada do crescimento sustentável da economia, para as reformas e para a continuidade do combate à corrupção e à impunidade. O cenário de um governo desmoralizado, de mais recessão e mais impunidade vai gerar mais perdedores, mais ressentidos e mais revoltados contra a política. Campo mais fértil, portanto, para a aventura populista.

SOCORRO A TEMER E AÉCIO

Registre-se que as táticas de socorro a Temer e Aécio são as mesmas usadas pelo PT para socorrer Lula, Dilma e seus “heróis do povo”: acusações de golpismo e de abusos de juízes, do ministério público e da mídia, sem falar nos argumentos sórdidos de que a corrupção sempre existiu por aqui e de que o brasileiro só não é corrupto quando não consegue ser.

Desde o impedimento de Dilma, considero errada a aposta no governo Temer. Ele teria de ser presidente, é claro, por imposição constitucional. Mas era evidente que o vice de Dilma e a quadrilha do PMDB não resistiriam dois anos e meio e, portanto, não poderiam ser a ponte para 2018.

Naquela ocasião existiam caminhos democráticos e constitucionais para encurtar o mandato de Temer, que foram ignorados intencionalmente pelo comando das forças políticas que assumiram o poder.

Um deles seria o TSE cumprir o dever de julgar a cassação da chapa Dilma-Temer e o Congresso aprovar a emenda do deputado Miro Teixeira de eleições diretas para um novo presidente legitimado pelo voto popular para levar o país até 2018. O julgamento foi empurrado com a barriga para que Temer nomeasse novos membros do tribunal que iria julgá-lo. E a proposta de Miro foi desconsiderada.

Houve, portanto, condições para um pacto político legítimo. Mas optaram pelo pacto contra a Lava Jato.

DESTINO TRÁGICO DO PSDB

Pode ter sido avaliação equivocada de alguns e foi seguramente irresponsabilidade e oportunismo de outros tantos embarcar na canoa furada com os bandidos que ajudaram a eleger e deram sustentação aos governos do PT. Por isso me desfiliei do PSDB, que se tornou no governo Temer o que o PMDB foi nos governos do PT.

O destino trágico do PSDB, que fez oposição nos 13 anos de governo petista e agora se vê desmoronar como alternativa democrática de poder também evoca Hannah Arendt com suas reflexões sobre a irreversibilidade da ação política.

Lula e o PT traíram a confiança da militância, dos eleitores e desmoralizaram a política para milhões de brasileiros. Aécio e o PSDB seguiram caminhos que levam ao mesmo lugar. Desembarcar agora do barco afundado de Temer é o que tem de ser feito, mas não vai consertar os erros cometidos.

Mesmo nos piores momentos procuro ser moderadamente otimista. Acho que o Brasil vai se livrar de muitos falsos líderes e de algumas quadrilhas da política com a continuação da Lava Jato. Tem muita gente fazendo a coisa certa na Polícia Federal, no MP, na justiça e na imprensa. Muitos crimes foram descobertos, alguns bandidos estão presos e alguns bilhões estão sendo resgatados. A sociedade está machucada mas também está mais atenta. Não vai ser fácil parar este processo virtuoso.

DIÁLOGO HONESTO E RESPEITO À DIFERENÇA

Por mais espertas que sejam as narrativas do PT e por mais bem articuladas que sejam as manobras do PMDB e do PSDB, as máscaras vão caindo a cada dia. Qual a diferença de Gilmar Mendes para Lewandowski e de Alexandre de Moraes para Toffoli? Os sofismas dos advogados e assessores de Temer e Aécio são idênticos aos do Cardozão e do Instituto Lula.

Então, o que fazer? A velha pergunta de Lenin é uma espécie de eterno retorno na política. Em primeiro lugar, entendo que é preciso respeitar a Constituição e defender as instituições democráticas. Depois, não acreditar em salvador da pátria e se convencer que melhores escolhas políticas surgem do diálogo honesto e do respeito à diferença. Isso vale para construir um pacto político legítimo, como fizeram outras sociedades em momentos de crise, e é condição necessária para a multidão ir para a rua novamente se as instituições não fizerem o que lhes cabe.

Recorro outra vez a Hannah Arendt, “pensadora da crise e de um novo início”, nas palavras do professor Eduardo Jardim. Acho que, para os amigos da democracia, é hora de dobrar a aposta na política como campo de convivência entre diferentes e também como oportunidade de recomeço.

 

PERSEGUIÇÃO AO JORNALISTA SIDNEY REZENDE: ATAQUE AO JORNALISMO E À LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

06/07/2016 | Comentários (0) | Política | Por: Altamir Tojal

Toda vez que vejo um episódio de intolerância e perseguição, seja política, religiosa, ideológica ou o que for, mais suspeito de que não há diferença entre o caçador de bruxas e o aprendiz de feiticeiro. Além do dano para a pessoa atingida e para a sociedade, o efeito bumerangue acaba acontecendo.

Pois é, feito o nariz de cera, vou ao ponto: conheço Sidney Rezende há 25 anos. É um dos melhores jornalistas do país. Seu trabalho na televisão e no rádio tem sido lastreado na competência e na ética. É também um empreendedor. Mesmo empregado em grandes empresas da mídia desenvolveu negócios próprios. Seu portal SRZD é independente e plural. Sidney mantém um blog rico em observações inteligentes e corajosas, com linguagem serena e elegante.

Sidney Rezende foi contratado para trabalhar na EBC por seu valor profissional. Foi umas das poucas coisas positivas na fase final do governo Dilma. Ele certamente melhoraria a programação e o ibope das emissoras do grupo. Foi uma estupidez ter sido descontratado no começo do governo Temer.

O portal SRZD concorre no mercado publicitário e veicula anúncios em troca de retorno de audiência para empresas privadas e públicas, como os demais órgãos de imprensa. Também é deplorável a retaliação publicitária que está sofrendo do governo.

Jornais, revistas e pessoas nas redes sociais veicularam acusações levianas sobre o contrato de Sidney som a EBC. Os valores estão nos parâmetros do mercado e o seu trabalho não esteve nem está a serviço de governos e partidos. Inclui-lo na lista dos chamados “blogueiros sujos”, além de ser uma injustiça serve para confundir os menos informados, botando juntos um jornalista de verdade com outros que não honram a profissão.

Usar a mudança de governo e a dramática situação política do país para afastar do trabalho um profissional competente e cortar publicidade de um veículo independente são atos de vingança e oportunismo de consequências graves para a sociedade. Isso não atinge apenas o jornalista Sidney Rezende. É um ataque ao jornalismo, à imprensa, à liberdade de expressão e à democracia.

Este caso vergonhoso da perseguição a Sidney Rezende, associa gente revanchista, ressentida e desinformada.

Voltando ao nariz de cera: quem promoveu e se beneficiou da corrupção deve enfrentar a justiça. Jornalistas de aluguel perdem credibilidade, que é o valor maior da profissão. Vingadores são estúpidos e covardes. Os piores são os que agem em nome de causas e bandeiras. Reproduzem as práticas daqueles que dizem criticar. E acabam sendo alcançados de volta pela violência e pela injustiça que promovem.

 

TEXTOS


Notas sobre o fim do mensalão

26/11/2013 | Comentários (0) | Por: Altamir Tojal

“Que abandonem a realidade é problema deles. O nosso é testemunhar o desfecho de uma aventura histórica, amparada no conceito de que os fins justificam os meios. Reconhecer isso é deixar a casca de uma esquerda autoritária e aceitar amplamente a democracia, sem se sentir dotado de uma causa superior a ela e, portanto, podendo atropelá-la”, do artigo do jornalista Fernando Gabeira, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 22 de novembro de 2013. Este texto, lúcido e sereno, tem pelo menos quatro parágrafos memoráveis sobre este momento político do Brasil.

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